Um olhar muito pessoal sobre a Educação no Canadá

Atualizado: 13 de Jun de 2019



Frio na barriga e 8:30 da manhã estávamos lá na escola do Miguel. Primeiro dia de aula, recém chegados no Canadá, uma língua que o Miguel não sabia falar, pouco sabíamos sobre a metodologia de ensino. Miguel com um sorriso largo no rosto, ansioso para seu primeiro dia de aula, pegou a mão da professora e nem olhou para trás.


Ansiosa, 3:30 da tarde, estava na porta da escola e o Miguel só diz "não volto mais para a escola". No caminho para casa dizia que ninguém o entendia e que não sabia o que fazer o tempo todo. "Mãe é incrível como eles conseguem me escutar, mas não fazem nada do que eu peço. Não sei falar a língua deles." O meu sentimento inicial foi "o que eu fiz?". Foram mais 6 dias chorando ao chegar na escola e voltar para casa com lágrimas escorrendo.


Por volta do décimo dia ele sai da escola sorrindo, "Mãe consegui falar inglês. Aqui eles não ligam se você fala certo ou errado, mas ficam felizes quando você fala". Acho que a primeira grande lição sobre educação aqui no Canadá, no que tange ao Kindengarden - 4 a 6 anos, é deixar o ambiente confortável para a criança se expressar da forma com que ela consegue, sem ditar o que é certo ou errado, encorajando-a a ter o gosto por falar. Conforme ele ia absorvendo novas palavras, ele as usava e com o incentivo, aprendia rapidamente.

Após um mês, ele conseguia se comunicar razoavelmente bem. Depois deste período nos chamaram para uma reunião, para enfim entender como era a metodologia de ensino. O Miguel já ia para escola no Brasil desde os 5 meses de idade. Com 4 anos já reconhecia todos os números de 1 a 10, sabia escreve-los, conhecia todas as letras, escrevia seu próprio nome e aos poucos já juntava as sílabas para formar palavras. Nesta reunião a professora canadense informou que a escola, para a idade do Miguel (4 a 6 anos), tinha quatro objetivos:


1) Pertencer e contribuir - conexão com o próximo através da empatia, entendendo fazer parte de um grupo, de uma sociedade e respeitar as diferenças;


2) Auto conhecimento e bem-estar - oferecer recursos para que a criança reconheça e respeite os seus sentimentos;


3) Resolução de problemas e criatividade – apresentar atividades que aguçassem mais a curiosidade e criatividade, testando teorias, resolvendo problemas em grupo, experimentando, desenvolvendo uma analise critica;


4) Leitura e Matemática - trabalham a comunicação (oral, escrita, por símbolos, gestuais, físicos, por imagens e sons), dão noção de matemática para entender o valor dos números e criam o hábito de leitura através da frequência a biblioteca e contando histórias em sala de aula.


Confesso que saí de lá um pouco apreensiva. Vim de uma educação de conteúdo, a qual o desempenho da criança é avaliado através do quão mais cedo ela aprende a ler e escrever. Me perguntava: será que este tipo de metodologia é eficiente?


Miguel passou a ter prazer de ir à escola. Interagia com todos os amigos. Sempre tinha uma novidade sobre algum conflito que ele conseguia resolver. Toda a segunda e sexta feira chegava com um livro e, mesmo sem ler uma só palavra, ele olhava as imagens e criava historias.


Criou-se o gosto pela leitura. Para sair de casa, sempre colocava um livro debaixo do braço para ler no caminho. Em 6 meses ele tinha lido aproximadamente 60 livros. Estava mais observador e atento quanto a tudo que acontecia ao seu redor. Foi acompanhando o desenvolvimento dele quanto aos aspectos psico sociais, que constatei o quão boa era esta oportunidade que ele estava tendo. Não, de forma alguma a educação é ineficiente.


Através da escola eu também fui lapidando o meu papel de mãe. Nós latinos temos uma cultura de servir muito forte. É instintivo. Queremos facilitar em tudo aos nossos filhos, porém aqui, eles acreditam que desde cedo a criança ela precisa entender de que é capaz de se vestir, comer sozinha e resolver pequenos problemas. O professor só intervém em algum problema se o aluno esgotou as possibilidades de resolução ou está tendo dificuldade, caso contrario ele tem um papel de aconselhador. Ele acolhe o aluno com problema, ajuda-o a entender qual o sentimento está aflorado e apresenta uma variedade de soluções possíveis para que o mesmo faça sua escolha.


A professora me explicou que não existe o certo ou errado, porém formas distintas de ver uma realidade.

Aqui eles apresentam ao aluno outras formas de pensar. Não tem problema se o aluno escreveu errado alguma palavra na atividade, ele tem muitos anos pela frente para corrigir na alfabetização, no entanto precisa conseguir expressar o seu significado. Ela complementou que o mais importante, nesta idade dos 4 aos 6 anos, é a criança entender que ela faz parte de um todo, que por toda a vida terá que se utilizar da empatia e que é fundamental reconhecer e saber expor o que está sentindo. Depois disso, a criança está preparada para um processo de alfabetização.


Não acho que existe uma educação certa ou errada e como aprendi aqui, existem formas distintas de se pensar sobre um mesmo assunto. Entretanto, eu acredito que este método de ensino, pelo menos nesta fase em que meu filho está (5 anos) vai muito de encontro com o que eu acredito ser importante para a formação do caráter da criança. Olhar ao próximo com mais empatia e gentileza, sentir-se capaz de expressar

sentimentos, até mesmo aqueles que são julgados pela sociedade como ruins (raiva, tristeza), e compreender que toda ação existe uma reação.



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