Depressão na Infância – Relato de uma história real



Decidi compartilhar um pouco da minha história, pois vejo muitas crianças sofrendo em silêncio, por trás de risos e brincadeiras. Este texto também me ajuda a curar feridas abertas há mais de 20 anos.


Tenho certeza de que as pessoas da minha família fizeram o seu melhor e me educaram de acordo com aquilo que elas aprenderam. Todos somos seres humanos, erramos e acertamos, e assim vamos evoluindo. Aqui compartilharei a minha interpretação dos fatos, no olhar da criança que eu era. Vale lembrar que a criança interpreta tudo no emocional, não há um pensamento lógico racional ainda. Portanto, algo simples como dar tchau e ir embora, pode ser interpretado facilmente como falta de amor.


Então vamos lá...


Quando criança, não sabia que tinha depressão, só sabia que estava triste e, muitas vezes, desejava não estar viva. Por fora, era uma criança tranquila, calma e alegre. Sim, é possível viver triste e alegre, pois dentro de nós temos todas as emoções. A alegria era o remédio que me mantinha viva e a tristeza era o remédio com gosto mais amargo, porém importante para liberar o que eu sentia.


Como tudo começou...


Cresci ouvindo comentários negativos que se tornaram parte da minha identidade, mas hoje vejo que tais comentários MAIS DIZEM SOBRE QUEM OS FEZ. Um deles me acompanhou até pouco tempo:


“Você é muito preguiçosa”.

Ouvia diariamente pela manhã esta frase, pois ficava enrolando na cama para acordar e sempre estava atrasada para a escola ou para começar o dia aos finais de semana.


Agora vou contar o que estava por trás desse comportamento e que ninguém sabia ou notou naquela época:


Eu era triste e tinha dificuldade para ir dormir. A insônia era minha companhia durante as noites silenciosas, onde eu ficava quietinha na cama, apenas pensando e esperando o tempo passar. Quando amanhecia, eu finalmente adormecia e por isso tinha dificuldade de acordar para ir à escola ou simplesmente curtir o final de semana.


Além disso, o momento de acordar não era prazeroso, sempre pensava: “Já está na hora de acordar? Queria dormir para sempre”. Quem tem ou já teve depressão sabe do que estou falando. Agora tente imaginar uma criança aos 7 anos de idade sentindo isso. Foi assim boa parte da minha infância.


Desmotivada, triste, com a autoestima baixa, me sentia um problema ambulante. Pouco era elogiada, os erros pareciam ser mais importantes. Vivia de castigo e o jeito era me acostumar e esperar os anos passarem até alcançar a maior idade e me libertar de todas as punições.


Isso refletia diretamente nas minhas amizades e no meu desempenho na escola.


  • Amizades - Lembro que durante todo o ensino fundamental tive pouquíssimos amigos. Vivia com receio do que os outros pesavam de mim, me achava burra, feia e quando algum aluno vinha puxar assunto eu fazia de tudo para ser “aceita” e agradar, mas não conseguia ser eu mesma.


  • Desempenho – Além de preguiçosa, também era chamada de “burrinha” dentro de casa e aprendi que eu não era boa nos estudos e que escola não era para mim, afinal quem é “burrinha” não aprende mesmo, por que eu iria me esforçar se já sabia que não conseguiria alcançar um bom resultado? As palavras têm força e se tornam parte da nossa identidade facilmente durante a infância, principalmente quando vem daqueles que são referência para nós.


Toda vez que via alguma janela ou varanda, olhava para baixo e pensava: “Será que se eu pular eu morro? “. Meu medo era não conseguir morrer e ser punida por ter tentado. Sempre estava planejando, avaliando onde e como poderia acabar com a minha vida e assim libertar todos que estavam cansados de mim e não dar mais problema para ninguém.


Eu estava doente, mas não sabia. Depressão não tratada é um fator de risco para sua reincidência. Infelizmente, a gente estuda de tudo na escola, mas não estuda sobre o mais importante: PESSOAS, emoções, comunicação não violenta, diversidade, perfis, talentos, habilidades, fragilidades. A gente se qualifica para trabalhar, mas para ser pai e mãe, "vamos dando o nosso jeitinho".


Tenho confiança de que um dia, todas as escolas terão nos seus currículos matérias sobre autoconhecimento e inteligência emocional. Enquanto isso, vou estudando por conta própria e procurando formas de passar esse conhecimento ao meu filho e quem sabe ajudá-lo, caso ele também sofra da mesma doença algum dia.


Como saber que sua criança tem depressão?


Gostaria de esclarecer que dificilmente uma criança sabe dizer que está com depressão. Recomendo a leitura do texto da psicóloga Juliana Pellegrino, onde ela descreve sinais (muito sutis) que podem ser um indicativo de que a criança está deprimida.


Link: https://www.criancaesaude.com/blog/depressão-infantil


Se você identificar algum desses sinais, NÃO SE SINTA CULPADO. Depressão é uma doença e pode ocorrer com sua criança por melhor pai, mãe, familiar, amigo, que você seja. Isso não significa que você falhou. Sua criança viverá muitos desafios nessa vida e você não pode controlar isto. O que você pode controlar é como você a ajudará a enfrentar cada um desses desafios.


Portanto, procure ajuda profissional. Existem vários locais que realizam atendimento social. Não feche os olhos. Crianças que constantemente perguntam “você me ama?” não estão fazendo joguinho (elas não sabem fazer isso, nós adultos sabemos). Leia as entrelinhas do que ela diz.


Abrace-a mais. Diga mais “EU TE AMO”. Procure razões para dizer que se orgulha dela.

Sempre que for preciso chamar a atenção da criança, mostre que seu sentimento por ela não mudou, que você ainda a ama e se orgulha muito dela, por isso sabe que ela tem capacidade de ser ainda melhor e agir de outra forma da próxima vez. Ao invés de dar sermão, conte uma história, pois assim a criança poderá absorver melhor seu conselho.


Como não sou especialista, compartilho um vídeo, onde a psicopedagoga Isa Minatel fala sobre a autoestima da criança e a diferença de SER AMADO e SENTIR-SE AMADO (6 minutos e 30 segundos).




Também deixo este outro vídeo, onde Isa Minatel, fala sobre como lidar e educar emocionalmente uma criança com o temperamento melancólico (o meu temperamento predominante). Vale a pena assistir e entender o que está por trás de uma criança calma e que chora com facilidade.





Um grande abraço!

Com carinho,

Mariana Treigher



Sobre Mariana Treigher

Mãe do Noah

Fundadora dos sites Parents Like Me e Criança e Saúde

Há 8 anos compartilhando informações sobre o desenvolvimento infantil


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